Tempo e natureza
Andei por vários caminhos até retornar à pintura. “Como se ter ido fosse necessário para voltar”, diz a canção de Gilberto Gil.
Ao longo do percurso, depois das telas iniciais, trabalhei com diversas técnicas e distintos suportes. Procurei também transmitir “os recados da natureza”, como chamo a arte ambiental, da qual nunca abri mão.
Dois elementos são centrais em quase tudo o que faço: o tempo e a natureza.
Na ação que o tempo realiza sobre os objetos é possível ver a dinâmica da própria vida, a formar novas composições materiais. É exatamente a partir do desgaste dos objetos naturais e do descarte dos objetos culturais que se dá uma das vertentes principais da minha criação: os objetos transformados.
A outra vertente é a minha relação com a natureza, presente em quase todos os meus trabalhos. Mais recentemente, longe da grande cidade, morando em meio à natureza, intensifiquei a observação diária de seus elementos, a complexidade de suas formas, a harmonia, as cores, o equilíbrio, a simetria, seus contrastes, suas texturas.
Essa intensa observação me impulsionou a retomar a pintura sobre tela. Uma forma de pintar que chamo de natureza abstrata, pois não é uma reprodução objetiva, mas uma leitura subjetiva e criativa, que adquire forma própria a partir do que a natureza me oferece.
Há muitas teorias sobre a ideia de voltar ao ponto de partida, àquilo que, no fim das contas, é o essencial. Creio que isso aconteceu comigo. Conheço a minha inquietude criativa e nada garante que não possa mudar. Mas é bom, é muito bom voltar para casa.
